domingo, 27 de julho de 2014

Criar playlists para escrever

Recentemente dei por mim com uma grande falta de vontade de escrever. O que veio destruir um bocado a ideia generalizada que tinha de que quando estou em casa (Portugal), escrevo sempre melhor. Ou porque é Verão, ou porque a minha cama e a minha secretária dão-me mais conforto, ou simplesmente porque adoro sentar-me com a minha caneca, abrir a janela e ouvir o som dos pássaros e das palmeiras na rua.

Seja qual for a razão, isso não aconteceu como por magia assim que cheguei a Portugal, e aquele entusiasmo todo com que vinha foi deitado pelo cano abaixo e só me restou pensar “oh bolas, que raio vou eu fazer agora?”

Resposta: Parar de te queixar e começar a trabalhar.

Assim o fiz. Dei-me ao luxo de umas semanas de prazer, visitar amigos, aproveitar o Verão. E depois peguei na minha caneca, abri a minha janela e comecei a martelar no teclado. 

Mas primeiro pensei “deixa-me cá repetir as músicas que andava a ouvir o ano passado quando estava a escrever”, e a seguir “que engraçado, parece que estou novamente a lembrar-me de todo aquele processo criativo e de como me sentia animada a escrever. Será que esta banda tem músicas que ainda não conheço?” E surpresa!! Até tinha! E quando dei por mim estava novamente a teclar alegremente no meu teclado e a escrever novas páginas de uma história nunca antes contada.

O objectivo de toda esta lenga-lenga? Como a música ajuda no processo criativo.

Não sei quantos de vós seguem blogs de escritores ou alguma vez se sentiu curioso em cuscar um bocado, ou até mesmo se deparou com uma playlist qualquer do vosso livro preferido. O que é certo é que escrever playlists para os seus livros parece ser a nova moda à qual os escritores adquiriram. E devem ficar a pensar vocês: “estes escritores devem pensar que estão a escrever filmes ou séries de televisão. Porque raio haveriam de precisar de músicas?” Admito que pensei isso a primeira vez que me deparei com tal coisa, fiquei “porra, eu estava à procura do soundtrack do Twilight. O FILME! Não do que ela andava a ouvir enquanto escrevia”.

A verdade é: por alguma razão as músicas existem nos filmes. Nunca te apercebeste do silêncio ensurdecedor na sala de cinema num momento em que pensas que o assassino está mesmo atrás dela e dás por ti a agarrar-te à cadeira com o suspense? Não? Ok, então talvez sou só eu que tenho medo de me assustar e então preciso de me agarrar a qualquer coisa. E aquele momento em que o herói acabou de declarar o seu amor e existe uma música de partir o coração atrás? Em que tu ou ficas awww…. Ou então blahhhh! (depende que estilo de romântico fores, eu como sou mais romântica incurável fico blahhh! Vómito!)



Música ajuda. Todos os meus grandes momentos de ideias geniais, super-fantásticas foram quase todos a ouvir música… ou a tomar banho, também ajuda. Mas o grande segredo dos escritores é que passamos grande parte do nosso dia a sonhar acordados. A imaginar a próxima cena que se vai desenrolar na nossa história, os personagens envolvidos e como isso vai prejudicar ou ajudar a história geral. E eu, pelo menos no meu caso, estou sempre a sonhar acordada quando estou a ouvir música. Por isso, juntamente com a minha caneca, a janela continua aberta, mas os passarinhos têm de cantar mais baixinho porque primeiro está a música.

O porquê de playlists? Ora, eu estou a escrever um livro sobre criaturas sobrenaturais e é certo que não vou pôr a tocar o “let´s go to the beach, beach. Let´s go get a wave”. Não me ajudaria a colocar-me na pele dos meus personagens. 

Há tempos estava eu muito bem na sala a escrever e ora que entra um dos meus companheiros de casa e diz, “essa música parece ser saída de um filme de vampiros”. Ora aí está uma prova de que estou a fazer algo bem. A não ser que me apeteça mesmo ouvir aquele CD novo daquela banda ou alguém me diga “esta banda é fixe, devias ouvir”, o meu media player consiste de playlists com o intuíto de me fazer entrar no mundo que eu criei dentro da minha mente. E maior parte das músicas contidas nos playlists ou são músicas que me ajudam a marcar o tom da minha história ou músicas que eu estava muito distraidamente a ouvir, quando aquela frase me marcou profundamente e parecia estar a contar directamente a história do meu personagem. Basta apenas uma frase, mas aquela frase marcou-me e vai para o meu playlist à espera de me inspirar novamente para esse personagem. E quem não quer ouvir uma balada, enquanto reúne o herói e a heroína e pensa “awww… se eu não tivesse nascido para ser escritora devia ter ido para cupido”.

Portanto, sim, juntei-me a essa maré que anda aí a criar playlists para os seus romances. E já criei duas, uma para o primeiro e outra para o segundo. O que é certo é que agora, depois de o ter deixado algum tempo pousado, voltei ao primeiro e há sua respectiva playlist e os versos das músicas conseguem trazer-me de novo para o momento em que as criei e como sentia a dor e felicidade do meu personagem quando escrevia as suas cenas.

Mas quando se trata de realmente concentrar-me, concentrar-me a sério. Ainda preciso dos passarinhos a cantar e o silêncio de tudo o mais.