terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Perdida numa cidade onde não falam a língua

           

Dia 11: Ontem cheguei ao hostel e disse a mim própria que só ia dormir umas 3 horinhas (visto que ainda eram 22h30 em Portugal quando aterrámos em Pequim). "Yah, pois!" Disse o corpo ao cérebro. Acabei por dormir até às 18h da tarde. O que fez com que não conseguisse dormir à noite, o que fez com que hoje acordasse à 13h e desperdiçasse grande parte do meu dia.

Decidi, então passar pelo Jardim zoológico de Beijing onde iria ver Pandas pela primeira vez!!! Pandas! Finalmente, o meu número não sei quantos da minha Bucket-List pode ser riscado.
Para lá, não houve problemas, fui dar com a estação na perfeição. O sistema de linhas é bastante semelhante ao metro de Londres e os nomes têm o Pinyin (fonética do Mandarim) por baixo.
Foi à vinda que as coisas se complicaram.


As estações de Beijing têm quatro saídas (ou pelo menos a de Zhangzizhonglu tem). E depois de andar perdida durante uns tempos, voltei a entrar na estação e sair por outra saída. Continuei perdida!
Finalmente, comecei a perguntar, mas as pessoas ou não sabiam ou não queriam ajudar por não saberem falar inglês, porque todos me respondiam que "não, não." Um senhor, que falava inglês, acabou por colocar a morada no GPS do telemóvel e pode ver que estava perto, mas não sabia qual era a direção do mapa. Acabou por apontar a dizer que devia ser para ali.

Mas quando ali chegou e eu continuava sem ver a outra saída do metro da estação, voltei a perguntar. Este senhor já parecia mais seguro, mas não falava uma palavra de inglês, e apontou-me para a frente, fez o sinal de cruzamento com os dedos e apontou para a direita.


Continuei a andar em frente (passando por aquela rua uma segunda vez) Cheguei ao cruzamento no final da rua e ainda não via nada que fosse familiar e decidi perguntar a um rapaz no cabeleireiro que me apontou na mesma rua que o senhor anterior. No final da rua ainda não havia sinal dos becos onde fica o meu hostel. 

Voltei a perguntar.

"É para trás," assinalou uma senhora em mandarim numa farmácia. ´"É para trás," assinalou outro rapaz.

Como é para trás? Acabei de fazer esta rua e não vi nada!

Comecei a desesperar e a parar os táxis. Parei 3 táxis, mas sempre que lhes mostrava a morada todos abanavam as mãos negativamente. Não sei se não sabiam ou se recusavam-se a levar-me por ser tão perto, porque nenhum falava inglês.

Finalmente, o taxista pareceu reconhecer a morada e apontou para trás. Eu fechei a porta do carro e disse: "Ok, então vamos." O senhor começou aos berros comigo em mandarim e a fazer o sinal de dois e para trás. "E uns dizem para a frente, outros para trás e eu estou cansada de estar perdida," berrei também, em inglês. Ele lá deve ter percebido que eu não ia sair porque pôs o taxímetro a contar.

Ele percorreu toda aquela rua que eu fizera a pé, virou na direção da rua onde eu perguntara ao primeiro homem do GPS e voltou para trás na outra faixa da estrada. De seguida, parou num beco e apontou-me para a frente, mas eu ainda não conseguia ver o meu hostel e não havia hipótese nenhuma de continuar perdida e ainda assim pagar por isso. Também eu apontei para a frente dizendo que seguisse. Ele voltou a reclamar comigo em mandarim e a gesticular e percebi que tinha algo a ver com o carro não caber. "E eu estou cansada de estar perdida," reclamei mais alto que ele.

Ele acabou por ceder, o carro acabou por caber e eu acabei por encontrar o meu hostel depois de ter estado duas horas perdida nas mesmas ruas. "Don't follow me. I'm lost too!"

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Auschwitz

Este post contem alguns detalhes extra para poder alimentar a curiosidade da minha prima que me pediu e, para a eventualidade de ela sempre ir a Auschwitz, poder saber como chegar.



Quando descobri que haviam voos diretos para Pequim a partir da Europa, o meu primeiro pensamento foi: "Gostaria de visitar uma cidade que ainda não conheço." Mas os voos mais baratos que conseguia encontrar eram a partir de Helsinquia, Varsóvia e Copenhaga (tudo cidades que já fui). Então foi ai que apareceu uma nova ideia: Eu sempre quis conhecer Auschwitz e na altura em que fui, há uns oito anos atrás, prometi a mim mesma que voltaria só para visitar o campo de concentração.
E quando a minha irmã quis passar as férias de Carnaval em Amesterdão, juntámos o útil ao agradável e decidimos fazer o percurso: Anne Frank -----» Campo de Concentração (apesar de só o pai dela ter vindo para este campo).

Camas em Bikernau

A primeira coisa que pensei quando cheguei ao campo foi: "estou a usar duas camisolas, dois casacos, um gorro e um cachecol e umas botas fortes e estou a morrer de frio. Como é que aquelas pessoas sobreviviam com apenas um pijama às riscas?" Ao caminharmos para a entrada começou a nevar. O sangue nas minhas veias parecia demasiado espesso e não demorou muito até que os sítios onde a circulação é mais lenta começassem a arder. Pouco depois, até o acto de tirar fotografias era restringido ao absolutamente necessários nas minhas mãos sem luvas.

         

Auschwitz I está dividido em blocos, e alguns desse blocos estão abertos ao público para exposições sobre a vida nos campos de concentração. A historia que algumas das tabletas de descrição contam são atrozes: "aqui eram dispostos os corpos dos que morriam a tentar fugir para assustar os outros prisioneiros", "aqui foram assassinados centenas de pessoas, não faça muito barulho para respeitar os que pereceram" entre outras... Mas essas não são as histórias que me fazem um pequeno nó na garganta que me obriga a respirar fundo. São as histórias de solariedade. Aquela que diz que uma mãe foi separada da sua filha pequena e que, mais tarde na liberação dos campos, a reencontrou devido à bondade de estranhos que tomaram conta dela e a protegeram. As histórias em que crianças sobreviventes de Auschwitz relatam que os adultos construíam-lhes brinquedos a partitr de trapos, pedras, madeiras e outros materiais que encontravam. A história de um padre que se voluntariou para morrer de fome para salvar a vida de um homem de família. Os horrores a que aquelas pessoas foram submetidos não me surpreendem, mas ver aquele instinto protetor que caracteriza a nossa espécie no que toca a proteger os mais novos, sim. Ver que ainda existiam pessoas que não deixaram a esperança, a bondade e a soliedariedade morrer enquato sofriam actos de crueldade macabros? São nessas alturas em que descubro o verdadeiro significado de "humanidade". 




Mesmo com o frio e a neve ocasional, o museu estava cheio. Algumas das pessoas traziam ramos de flores, talvez pessoas empáticas com o que aconteceu ou mesmo familiares de alguém que lá viveu, mas ainda assim são estas pessoas que de vez em quando me lembram que o que aconteceu ali não é algo que vem de um livro de terror, não são histórias inventadas. Aquelas pessoas eram humanos verdadeiros com famílias verdadeiras. Como é que coisas como o medo, ódio, desejo de poder e abstinência de opinião permitiram que aquelas histórias se tornassem uma realidade?


A maneira como o museu está disposto permite que pessoas mais sensíveis que talvez se achem incapacitadas de o visitar, consigam fazê-lo. Vemos coisas muito mais macabras no nosso dia à dia na televisão. Mas existem outras partes menos complacentes. Salas que mostram, numa vitrina de uma ponta à outra, as duas toneladas de cabelo recuperados de sacas armazenadas que os alemães usavam para vender como têxteis. Milhares e milhares de sapatos puídos e rotos, retirados das pessoas à sua chegada, quando lhe entregavam socas de madeira. No meio de tanto sapato quase que se pode considerar um milagre quando encontras os únicos dois pares de sapatos completos.



Quando visitámos a câmara de gás em Auschwitz estava um pouco à espera de sentir o tal cheiro a queimado que as pessoas falam quando visitam o campo, mas tal não aconteceu. Foi depois de apanharmos o shuttle grátis que nos leva até Bikernau (Auschwitz II) que o tal cheiro se tornou presente. Dezenas (talvez até centenas) de crematórios estão dispostos, partidos e queimados de um dos lados do campo. Do outro lado estão as barracas onde os prisioneiros eram obrigados a dormir em três andares, apertados uns contra os outros por falta de espaço. Alguns até escreveram os nomes, com medo de serem esquecidos que ali estiveram, medo que a história os classifique como apenas mais um número que morreu no holocausto...









Para quem deseja saber: da estação de Varsóvia (Warszawa Centralna) existem comboios diretos para Cracóvia (Kraków Glowny) que variam entre os 15-75 euros, dependendo das horas e dias (eu aconselho a ir ao posto de informação na estação e perguntar qual é o comboio mais barato). A viagem dura cerca de 3 horas.




Quando em Cracóvia, é possível ficar num hostel e passar lá uma noite ou duas. (Cracóvia é uma cidade muito bonita e existem Free Walking Tours que contam a história da cidade e vos guiam pelos monumentos principais, isto é especialmente útil se forem um zero à esquerda com direções, estiverem constantemente a perderem-se com os mapas, e fervam em pouca água quando se começam a perder demasiadas vezes.*tosse* não estou a falar de mim *tosse*)

Para Auschwitz é possível apanhar o comboio (que para numa estação a 2km do museu e existem com menos frequência, ou um autocarro. Eu aconselho o autocarro (a estação fica no mesmo centro comercial que a estação de comboios). Os bilhetes custam mais ou menos 3 euros e os autocarros param mesmo no museu e dura 1,5h. Não é preciso comprar bilhetes de retorno, porque existem várias companhias de autocarros a diferentes horas, por isso o autocarro em que foram para lá nem sempre será o mesmo que voltam (não é preciso ficar dependente do mesmo). O nome polaco para Auschwitz é Oswiecim, por isso é esse nome que devem procurar quando estão à procura dos autocarros.

A entrada para o museu sem guia é grátis. Bilhete online no website é 30 euros para estudantes e 40 euros bilhete normal. 




terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Casa de Anne Frank

Hoje fomos à casa da Anne Frank em Amesterdão. E fiquei surpreendida pelo facto que, ainda nos dias de hoje, as pessoas não se darem conta do poder e significado que as palavras podem ter. Pelo menos até termos experiências como estas.

Quando começámos a visita ao museu, estavam, numa sala pequena, quatro televisões onde a voz de uma rapariga relatava a ascensão da Alemanha-Nazi e como tinham começado a tratar os judeus, o que levou muitos a emigrarem.

Não se ouve um único ruído na sala. Não é a mesma coisa quando o professor ou professora passa um filme na aula e há sempre aquela criança mais malcomportada que se recusa a calar. Ou como depois de um ataque ou acidente horrível, oferecemos um minuto de silêncio aos que pereceram e existe aqueles segundos de confusão antes de nos apercebermos do que está a acontecer.


Aqui só ouvimos o sotaque britânico da criança que representa Anne Frank e o som das pessoas a respirar à nossa volta. E, quando ela termina de falar, vemos dezenas de pessoas a olhar para um ecrã preto, sem se atreverem a mexer, a falar, e alguns até se esqueceram de respirar durante uns segundos. Uns segundos é o tempo que demora até a normalidade voltar. Segundos esses que são o suficiente para te fazer pensar: “se as pessoas se sentem tão comovidas pelo que aconteceu, se aquelas palavras lhes fizeram sentir qualquer coisa de tal forma que se esqueceram de tudo o resto, então porque continuamos a permitir que coisas destas ainda aconteçam?”
Quarto de Anne Frank

Continuamos a visita e, apesar de lamentar o que aconteceu com a Anne e tenha lamentado mais ainda quando li o seu diário e descobri que ela nunca chegou a ter o seu final feliz, não consigo deixar de pensar se não foi a morte dela que fez com que a sua voz silenciosa fosse ouvida por milhares. Eu li um livro semelhante ao de Anne Frank, chamado Clara, A Menina que Sobreviveu o Holocausto, sobre uma rapariga que escreveu um diário durante os tempos que permaneceu com a família debaixo do soalho de um amigo que os escondeu nos tempos da guerra. As condições de vida que a família de Clara ultrapassou foram muito mais severas, e existe um episódio onde quase sufocam uma criança sob o medo de serem apanhados, mas ela nunca teve o reconhecimento público de Anne. Talvez tenha sido porque o seu livro foi publicado numa altura mais tardia, onde a guerra já começava a ser uma memória distante, quando o sofrimento era apenas uma cicatriz que já não doía. Ou talvez seja porque a sua sobrevivência não teve o efeito de catalisador que levou a Anne à fama.

Ela queria ser famosa mesmo já depois de morta. Ela queria deixar uma marca que permaneceria já depois de ter fechado os olhos e conseguiu o seu desejo. Mas porque só lamentamos aqueles que sofrem depois de já ser tarde demais para ajudá-los?

Estante que os escondeu
Racismo ainda não é uma coisa que está completamente no passado. A descriminação por diferentes crenças religiosas continua tão presente quanto nos tempos antissemíticos. Horrores de guerras ainda são permitidos nalguns países, onde as pessoas não têm ninguém a lutar por eles. E basta reparar, que a primeira coisa que os EUA fizeram quando a Segunda Guerra Mundial terminou foi criar um país segregado. A África do Sul criou o apartheid… E agora temos outros países a dizer que o holocausto nunca aconteceu, que foi apenas uma história inventada.

Será que os humanos não aprendem com os erros? 


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sábado, 6 de fevereiro de 2016

Chegou o dia!

O dia da partida chegou, começo a olhar para o quarto e só tenho vontade de pôr as mãos na cabeça, não por medo ou ansiedade, se bem que acho que esses sentimentos não ajudem, mas porque as gavetas estão abertas, as roupas espalhadas, os livros caídos e a secretária recheada de canecas de galões.

Dou uma vista de olhos à check-list e penso que mesmo assim deve haver qualquer coisa que vai ficar esquecida, como é que eu deixei tudo para o último minuto??

Ah! Já sei! Porque és tu.

O que me leva a um tópico com o qual me debato muitas vezes, cada vez que viajo e por vezes no mundo da escrita, nervosismo ou falta de preparação? É verdade que é natural sentir-se nervosismo antes de uma viagem, mas sempre? Será que se tivesses preparado um bocadinho mais o teu itinerário, visto como chegar, planeado os teus dias, feito as malas (toda e não apenas parcial para a fotografia), não te sentias mais relaxada? Nervosismo ou falta de organização? Se fizesses uma lista de preparação, anotando as coisas conforme vão aparecendo e não escrever no último dia, à espera que te lembres de todas, dizendo profanidades quando te lembras de uma já a caminho do aeroporto, talvez não tivesses tão stressada.

E depois penso, não seria eu se o fizesse. Não seria aquela pessoa que foi para a América do Sul, sem nada planeado, com apenas as primeiras duas noites marcadas e sem fazer ideia de como apanhar um autocarro para a Bolívia (porque não me tinha dado ao trabalho de descobrir que afinal o sistema de transportes da América do Sul é fantástico), aquela rapariga que ia visitando as cidades conforme lhe iam dizendo que eram sítios interessantes para se ver. Aquela que descobria quando compraria o próximo bilhete, quase na altura de o comprar ou por vezes chegava à cidade sem hostel reservado. Eu odiava essa rapariga, ela deixava-me os nervos em franja todos os dias antes de uma partida, mas eu adorava essa rapariga e o seu espirito de aventureira.

A primeira semana está toda marcada e planeada, porque não serei só eu a viajar e a europa é muito mais cara para se andar à aventura, mas a partir do dia 14 (o dia do meu voo para Pequim), eu vou festejar o dia dos namorados e vou voltar à andar com essa rapariga, porque apesar de odiar estes nervos miudinhos, adoro muito mais saber que não tenho planos ou satisfações a dar.


quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

O início d' As Crónicas de Shaolin

Nestes últimos dias, tenho andado a roer as unhas até ao tutano e a olhar para a caixa que a minha melhor amiga me ofereceu como presente de Natal e ponderar se devo ou não abrir o presente que diz "Preciso de um abraço" ou "Abre quando estiveres stressada ou preocupada"...

Estou prestes a embarcar numa das maiores aventuras da minha vida, uma viagem até à China onde serei uma jovem aprendiz de artes marciais, uma experiência que por certo irá alterar a minha vida (vamos esperar que para melhor).

No entanto, os meus sentimentos variam entre o "não acredito que isto está mesmo a acontecer, deixa-me fazer a mala uma semana antes do dia" e o "um ano inteiro na China? Endoideceste?  Já pensaste no choque cultural? Tu sabes que as pessoas desconhecidas te deixam nervosa e o quão difícil é conheceres pessoas novas. Tu nem sequer gostas de pessoas novas." Esta última parte pode ter sido um bocadinho exagerada, mas não significa que não me tenha passado pela cabeça. 

De uma coisa tenho a certeza: este é o tipo de coisa que se não fizeres agora, irás arrepender-te para o resto da vida.

Mas enfim, tenho um grupo de apoio bastante ansioso de saber como irá correr as minhas aventuras e que me enchem de palavras de motivação quando a coragem começa a tremer. E não me posso esquecer que "se houver outras raparigas irás ter melhores amigas com quem lutar o dia inteiro e falar sobre feminismo a toda a hora." (Essa foi uma das pep-talks que recebi.)

A contagem decrescente já começou, as últimas refeições preferidas comidas e os "olás" e os "adeus" feitos. Agora resta esperar até Sábado e iniciar a nova aventura com a primeira paragem: Amesterdão, Holanda.

P.S.: Não resisti e tive de abrir o presente "Preciso de um abraço", precisava de saber se o peluche era ou não um panda depois da conversa que tive com a minha amiga em que lhe disse que "namorado meu nunca haveria de ter autorização para me oferecer um peluche que não fosse um panda." Ah, e nem acredito que vou finalmente ver pela primeira vez o meu animal preferido.