sábado, 18 de fevereiro de 2017

Opinião Literária - Soberba Escuridão

Este livro foi me oferecido pela própria autora quando propusemos fazer uma troca de livros, para podermos ficar a conhecer o trabalho uma escritora de ficção sobrenatural para outra escritora de ficção sobrenatural.



Título Original: Soberba Escuridão 

Autora: Andreia Ferreira
Editora: Alfarroba 
Páginas: 253


Sinopse"Quando o relógio pisca as doze horas intermitentes, Carla recebe no seu quarto uma visita indesejada.

A partir daí, todo o seu mundo desmorona e a solidão e o medo encarregam-se de a arrastar para um estado deprimente que só um desconhecido parece compreender. 
Cega de paixão, nega as evidências de que o seu novo amor é mais do que um rosto angelical. Ele esconde segredos que a levarão para perigos que parecem emergir das profundezas do inferno."

Opinião: Como qualquer livro, devo começar por afirmar que este tem os seus altos e baixos (e visto que é a estreia da autora, deveríamos congratulá-la). 

Tem uma escrita fluída e não aparenta grandes floreados de leitura complicada que muitas vezes dominam os escritores portugueses. É verdade que temos uma língua bela, mas num país que pouco lê, deveríamos focar-nos em apresentar histórias interessantes e incentivar a leitura dos nossos jovens, ao invés de os obrigar a tirar um curso superior para poder ler só o primeiro capítulo.

Eu, apesar de grande fã dos temas dos vampiros e lobisomens como podem constar em “Sombras”, quero também louvar a escritora pela sua originalidade e por ter apresentado um livro dentro do género sobrenatural que se esquiva um pouco a este tema tanto usado. E, quem me conhecer sabe que sou amante da mitologia a nível mundial, por isso quando li o pequeno excerto sobre a mitologia egípcia, delirei!

No entanto, qualquer escritor tem os seus momentos baixos nas suas primeiras tentativas. Só eu sei o quanto gostaria de voltar atrás e rever os pontos menos agradáveis de “Sombras” para torná-lo no livro perfeito, apesar de estar contente com o seu produto final. Devo dizer que houve demasiada infodump no começo do livro, pequenos detalhes que talvez podiam ter sido incluídos aqui e ali, ao longo da história. E tanto quanto assim, o oposto também é verdade. A autora tentou ocultar demasiada informação acerca dos acontecimentos estranhos que ocorriam, de forma a poder apresentar tudo no final, mas na minha opinião isto só levou a que a personagem principal, Carla, agisse de uma maneira que eu acho deveras inapropriada (como estar tão completamente e loucamente apaixonada que nem exige sequer saber informação sobre o namorado), e levou-me a ficar um bocadinho frustrada com o desenvolvimento. Toda a gente gosta de mistério, mas ninguém gosta de andar às aranhas. Mas, se o objetivo era que continuássemos agarrados ao livro para tentarmos descobrir mais, resultou. Estes tipos de estratégias têm de ser feitos com cuidado porque também podem ter o efeito de fazer um leitor abandonar um livro ou perder o interesse pela série, mas comigo funcionou (eu é que também sempre fui muito impaciente).

A relação de Carla e Caael pareceu-me avançar de forma demasiado rápida, e não deu oportunidade para o suspense e o build-up, que leva os leitores a apaixonar-se ao mesmo tempo que o casal. E, honestamente, gostei muito das personagens femininas deste livro, têm as sua diferenças, o que as torna reais com os seus defeitos e qualidades, mas a mim parece-me que assim que se coloca testosterona no meio, elas perdem imediatamente vários pontos de QI. Apesar de ser verdade, na vida real, para algumas pessoas, estas alterações levam tempo. Ninguém é uma rapariga normal no seu dia-a-dia, e no dia seguinte, porque arranja namorado, deixa de falar às amigas. Estes comportamentos alteram-se aos poucos.

E por último, gostaria de abordar o recorrente tópico de violação e a cena de sexo. Mais uma vez, parabéns à autora por se ousar tanto. Contudo, pareceu-me não combinar com o restante estilo da história. Esta é uma história que eu incluiria numa audiência mais jovem – e não quero ser pudica e acreditar que os jovens de hoje não vão saber o que sexo é, ou que não deveriam ser alertados para os problemas de estupro, porém houve detalhes que não me pareceram ir em concordância com o restante estilo de escrita e não necessitavam de ser tão pormenorizados (mas é um tema grave e recorrente e não devia ser ignorado na nossa sociedade, por isso até mesmo os mais novos deviam ser alertados).

Por final, quero agradecer à autora a oportunidade em dar-me a conhecer o seu livro. Felicitá-la mais uma vez pelo seu livro de estreia e por batalhar num público e género onde os autores portugueses não têm tanta estima quantos os estrangeiros. Fiquei curiosa para ler o segundo volume, e espero que continue o bom trabalho.

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